quinta-feira, 9 de março de 2017

A parte boa de amar alguém não é só ver-te dormir







A parte boa de amar alguém não é só ver-te dormir e imaginar quem te vai dentro da cabeça, 
no lugar onde os olhos se reviram
e o cérebro mora.


A parte boa de amar alguém não é só esperar por ti no metro com a certeza que vens neste, que é o teu corpo o primeiro a sair para me abraçar
que és tu à minha procura quando as portas se abrirem e todos se movimentarem acotovelados de cansaço
 - todos menos nós,
 por nos termos um ao outro.



A parte boa de amar alguém não é só o cheiro que a tua pele traz com ela e dorme na almofada a olhar para mim; nem é só ver-te as calças a escorregar pelo rabo quando o cinto não está na presilha certa-  e eu me rir de ti - e achar-te meio meu.


A parte boa de amar alguém é cozinhar para ti, é ter ciúmes, é viajar contigo e dizer-te que o tampo da sanita ficou levantado pela centésima vez - sabendo que não ouves.


A parte boa de amar alguém não é só saber o que tu pensas antes de o teres pensado,
nem saber que vais pedir café cheio
 com metade de um pacote de açúcar
 e um copo de água que só fará companhia à chávena triste em cima da mesa
que nos ouvirá rir o resto da tarde.

A parte boa de amar alguém não é só deixar-te adormecer no sofá porque estavas exausto e tentaste aguentar até ao final da série: a parte boa de amar alguém não é só escrever-te poesias e ler-tas como se fossem flores:
 a parte boa de amar alguém é um dia quando não me amares mais.


A parte boa de amar alguém é sobreviver à partida, é contornar o desgosto com a certeza que saberemos ser sempre assim;
que saberemos sempre tocar com eternidade na ponta dos dedos - e que saberemos sempre conduzir eternidade à pele que é tocada.


A parte boa de amar alguém é estar aqui contigo a achar que isto nunca mais vai acabar,
ainda que um dia tu te apaixones e as tuas pernas me deixem sozinha e a terra me engula.


A parte boa de amar alguém é guardar sempre as cartas com as palavras lá dentro.
A parte boa de amar alguém é guardarmos a certeza que existimos.




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