sábado, 29 de outubro de 2016

Para a Eternidade - João Lobo Antunes



"Não sei o que nos espera, mas sei o que me preocupa: é que a medicina, empolgada pela ciência, seduzida pela tecnologia e atordoada pela burocracia, apague a sua face humana e ignore a individualidade única de cada pessoa que sofre, pois embora se inventem cada vez mais modos de tratar, não se descobriu ainda o modo de aliviar o sofrimento sem empatia ou compaixão."

Mueck

quarta-feira, 26 de outubro de 2016

Não há mais nada no meu corpo




Não há mais nada no meu corpo:
nem dor nos olhos
nem o vazio da chávena de leite que engulo sozinha como pedaço de carne inteira por deglutir,
por matar com os dentes quentes, hirtos,  em pé, ao fundo da minha boca.


Não há mais nada no meu corpo:
apenas talvez o peixe  que comi ao jantar entalado na garganta,
e  que mexe de vivo,
- porque vivo engolido

e a mexer-se corta-me a garganta com a luz das escamas:
na verdade, as suas escamas são o mar.


Não há mais nada no meu corpo:
porque o meu corpo morreu esquecido do tempo da janela,
de como tudo era tão bonito lá fora,
quando lá fora era o lugar de onde as pessoas saiam vestidas.


Não há mais nada no meu corpo:
porque a vida chegou antes.

Só por isso, não há mais nada no meu corpo.
Já não há mais nada aqui.

quarta-feira, 19 de outubro de 2016

Do que é da vida







Podia falar-te da falta que me fazes de dia quando sais,
podia falar-te do cio, das pernas a tremer  antes de chegares:
podia até falar-te das vezes em que me mordo para degolar a raiva que se senta,
plácida,
no sofá do nosso quarto a olhar para mim antes de tu vires.


Podia falar-te do mal e do bem,
da decoração da casa nova,
das tuas costas,
(eu sei tanto da beleza das tuas costas).


Podia falar-te das nossas pernas trancadas na cama de manhã
com a força férrea de um cadeado de portão:
podia falar-te do meu vestido de hoje
da sua roda
ou dos teus olhos que são negros como o céu.



Podia falar de guerras, de espadas e de outros mundos;
mas seria um erro tão estúpido.
Porque, sabes, só tu és guerra,
porque só tu és mundo.



 .





terça-feira, 18 de outubro de 2016

Para viver um grande amor






Para viver um grande amor, preciso é muita concentração e muito siso, muita seriedade e pouco riso — para viver um grande amor.

Para viver um grande amor, mister é ser um homem de uma só mulher; pois ser de muita
s, poxa! é de colher... — não tem nenhum valor.

Para viver um grande amor, primeiro é preciso sagrar-se cavalheiro e ser de sua dama por inteiro — seja lá como for. Há que fazer do corpo uma morada onde clausure-se a mulher amada e postar-se de fora com uma espada — para viver um grande amor.

Para viver um grande amor, vos digo, é preciso atenção como o "velho amigo", que porque é só vos quer sempre consigo para iludir o grande amor. É preciso muitíssimo cuidado com quem quer que não esteja apaixonado, pois quem não está, está sempre preparado pra chatear o grande amor.

Para viver um amor, na realidade, há que compenetrar-se da verdade de que não existe amor sem fidelidade — para viver um grande amor. Pois quem trai seu amor por vanidade é um desconhecedor da liberdade, dessa imensa, indizível liberdade que traz um só amor.

Para viver um grande amor, il faut além de fiel, ser bem conhecedor de arte culinária e de judô — para viver um grande amor.

Para viver um grande amor perfeito, não basta ser apenas bom sujeito; é preciso também ter muito peito — peito de remador. É preciso olhar sempre a bem-amada como a sua primeira namorada e sua viúva também, amortalhada no seu finado amor.

É muito necessário ter em vista um crédito de rosas no florista — muito mais, muito mais que na modista! — para aprazer ao grande amor. Pois do que o grande amor quer saber mesmo, é de amor, é de amor, de amor a esmo; depois, um tutuzinho com torresmo conta ponto a favor...

Conta ponto saber fazer coisinhas: ovos mexidos, camarões, sopinhas, molhos, strogonoffs — comidinhas para depois do amor. E o que há de melhor que ir pra cozinha e preparar com amor uma galinha com uma rica e gostosa farofinha, para o seu grande amor?

Para viver um grande amor é muito, muito importante viver sempre junto e até ser, se possível, um só defunto — pra não morrer de dor. É preciso um cuidado permanente não só com o corpo mas também com a mente, pois qualquer "baixo" seu, a amada sente — e esfria um pouco o amor. Há que ser bem cortês sem cortesia; doce e conciliador sem covardia; saber ganhar dinheiro com poesia — para viver um grande amor.

É preciso saber tomar uísque (com o mau bebedor nunca se arrisque!) e ser impermeável ao diz-que-diz-que — que não quer nada com o amor.

Mas tudo isso não adianta nada, se nesta selva escura e desvairada não se souber achar a bem-amada — para viver um grande amor.



Vinícius de Moraes

quinta-feira, 13 de outubro de 2016

Querida filha que não tenho





Querida filha que não tenho,

Texto publicado em Capazes

Se algum dia nasceres, não sei como fui capaz de te ter tido.
Devo ter sido assaltada pela coragem que atinge as mulheres da nossa família quando decidem ser mães: ter-te posto neste mundo será sempre como viver com um revólver apontado à minha própria cabeça.
Vou ter medo do que te possa acontecer sempre que saíres do meu radar de supervisão materna (dizem que isso é ser mãe). 
És uma mulher: a tua condição condena-te à nascença, se eu não te fizer forte, destemida e audaciosa. Vais estar duplamente priorizada na minha vida pelo género que te foi atribuído. 
Mas vou educar-te para a guerra.
A tua geração certamente ainda não verá o que a minha geração sonha: mulheres respeitadas na rua quando passam para ir trabalhar, mulheres com acesso à educação e à saúde, mulheres com salário idêntico ao dos homens quando posicionados nas mesmas tarefas, mulheres que não precisam temer namorados com facas à sua espera.
Sei que enquanto viveres vais conhecer casos de mulheres vítimas de violência doméstica – de caras negras a explicarem que afinal caíram de uma escada enquanto choram medo – crianças em casamentos forçados, mulheres vítimas de tráfico sexual, de violação – talvez os teus ouvidos ainda oiçam juízes e juízas a dizerem de forma insinuosa “vestia-se de forma provocadora” , uma espécie de “estavas mesmo a pedi-las com essa saia e com esse decote”.
Não, minha querida, nenhuma mulher no mundo pediria para ser violada no seu juízo perfeito. 
Vais certamente ainda ouvir falar de casos de mulheres submetidas a tortura psicológica de matriarcas que passam a mandar nelas depois de um casamento que nunca escolheram para si: porque nunca foram ouvidas, porque nunca a sua voz importou. 
A tua geração ainda vai saber o que é MGF: sobre como se faz mutilação genital feminina em bebés e em meninas – sim, põe-lhes um pano na boca se forem já meninas, sim cortam-nas para as controlar sexualmente, sim vão alegar que é tudo em nome de uma cultura ancestral.
Sei que vais saber que cultura e tradição não podem bombardear direitos humanos inalienáveis. 
Há dias liguei a televisão e ouvi um homem dizer que as leis deste país são “como as meninas virgens, foram feitas para ser violadas”.
Fiquei com a chávena na mão enquanto o ouvia e imediatamente pensei em ti.
Leviano e grotesco: “como meninas virgens para serem violadas”. 

Vivemos um tempo estranho.


Se algum dia nasceres, promete-me que olharás bem por ti… e pelas mulheres à tua volta.
Até um dia,


domingo, 2 de outubro de 2016

Para A.




Começas o dia a responder a um mail de uma menina de 7 anos que leu o teu primeiro livro infantil "Pitopeca  em África" e prometeu um mail no fim da leitura.

Ela diz que adorou, que não encontrou erros ortográficos ( sim, ela costuma ler livros com erros) mas tem questões muito próprias de uma menina que olha os adultos nos olhos e pede respostas com dedo em riste como quem quer conhecer tudo o que mexe à sua volta ( e eu gosto tanto de meninas destas).

Tu, autora menor, começas o dia explicando coisas que tu própria consideras estranhas e certas e diferentes e que no fundo são o mundo.

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"Minha querida A.,

Fico feliz que tenhas gostado e sobretudo que não tenhas encontrado erros. 😊
Sabes, não podemos ler livros nem ver o mundo à nossa volta sempre com os mesmos olhos.

Às vezes temos de olhar com  olhos diferentes ( temos de arranjar vários tipos de olhos) para ver ou conhecer o que nos é apresentado de forma diferenciada: sejam cores, seja uma nova forma de voar.

Sei que vais pensar nisto❤️❤️❤️

Um grande beijinho e obrigada pelo teu e-mail!!

( e estás quaseeee a fazer anos!!!!!)

Inês

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