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A mostrar mensagens de Outubro, 2016

Para a Eternidade - João Lobo Antunes

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"Não sei o que nos espera, mas sei o que me preocupa: é que a medicina, empolgada pela ciência, seduzida pela tecnologia e atordoada pela burocracia, apague a sua face humana e ignore a individualidade única de cada pessoa que sofre, pois embora se inventem cada vez mais modos de tratar, não se descobriu ainda o modo de aliviar o sofrimento sem empatia ou compaixão."

Mueck

Não há mais nada no meu corpo

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Não há mais nada no meu corpo:
nem dor nos olhos
nem o vazio da chávena de leite que engulo sozinha como pedaço de carne inteira por deglutir,
por matar com os dentes quentes, hirtos,  em pé, ao fundo da minha boca.


Não há mais nada no meu corpo:
apenas talvez o peixe  que comi ao jantar entalado na garganta,
e  que mexe de vivo,
- porque vivoengolido

e a mexer-se corta-me a garganta com a luz das escamas:
na verdade, as suas escamas são o mar.


Não há mais nada no meu corpo:
porque o meu corpo morreu esquecido do tempo da janela,
de como tudo era tão bonito lá fora,
quando lá fora era o lugar de onde as pessoas saiam vestidas.


Não há mais nada no meu corpo:
porque a vida chegou antes.

Só por isso, não há mais nada no meu corpo.
Já não há mais nada aqui.

Do que é da vida

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Podia falar-te da falta que me fazes de dia quando sais,
podia falar-te do cio, das pernas a tremer  antes de chegares:
podia até falar-te das vezes em que me mordo para degolar a raiva que se senta,
plácida,
no sofá do nosso quarto a olhar para mim antes de tu vires.

Podia falar-te do mal e do bem,
da decoração da casa nova,
das tuas costas,
(eu sei tanto da beleza das tuas costas).

Podia falar-te das nossas pernas trancadas na cama de manhã
com a força férrea de um cadeado de portão:
podia falar-te do meu vestido de hoje
da sua roda
ou dos teus olhos que são negros como o céu.


Podia falar de guerras, de espadas e de outros mundos;
mas seria um erro tão estúpido. Porque, sabes, só tu és guerra,
porque só tu és mundo.


 .




Para viver um grande amor

Para viver um grande amor, preciso é muita concentração e muito siso, muita seriedade e pouco riso — para viver um grande amor.

Para viver um grande amor, mister é ser um homem de uma só mulher; pois ser de muita
s, poxa! é de colher... — não tem nenhum valor.

Para viver um grande amor, primeiro é preciso sagrar-se cavalheiro e ser de sua dama por inteiro — seja lá como for. Há que fazer do corpo uma morada onde clausure-se a mulher amada e postar-se de fora com uma espada — para viver um grande amor.

Para viver um grande amor, vos digo, é preciso atenção como o "velho amigo", que porque é só vos quer sempre consigo para iludir o grande amor. É preciso muitíssimo cuidado com quem quer que não esteja apaixonado, pois quem não está, está sempre preparado pra chatear o grande amor.

Para viver um amor, na realidade, há que compenetrar-se da verdade de que não existe amor sem fidelidade — para viver um grande amor. Pois quem trai seu amor por vanidade é um desconhecedor da liber…

Querida filha que não tenho

Querida filha que não tenho,
Texto publicado em Capazes
Se algum dia nasceres, não sei como fui capaz de te ter tido.
Devo ter sido assaltada pela coragem que atinge as mulheres da nossa família quando decidem ser mães: ter-te posto neste mundo será sempre como viver com um revólver apontado à minha própria cabeça.
Vou ter medo do que te possa acontecer sempre que saíres do meu radar de supervisão materna (dizem que isso é ser mãe).  És uma mulher: a tua condição condena-te à nascença, se eu não te fizer forte, destemida e audaciosa. Vais estar duplamente priorizada na minha vida pelo género que te foi atribuído.  Mas vou educar-te para a guerra. A tua geração certamente ainda não verá o que a minha geração sonha: mulheres respeitadas na rua quando passam para ir trabalhar, mulheres com acesso à educação e à saúde, mulheres com salário idêntico ao dos homens quando posicionados nas mesmas tarefas, mulheres que não precisam temer namorados com facas à sua espera.
Sei que enquanto viveres…

Entrevista - Aveiroin

A ouvir aqui


Raias Poéticas - Outubro 2016

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Para A.

Começas o dia a responder a um mail de uma menina de 7 anos que leu o teu primeiro livro infantil "Pitopeca  em África" e prometeu um mail no fim da leitura.

Ela diz que adorou, que não encontrou erros ortográficos ( sim, ela costuma ler livros com erros) mas tem questões muito próprias de uma menina que olha os adultos nos olhos e pede respostas com dedo em riste como quem quer conhecer tudo o que mexe à sua volta ( e eu gosto tanto de meninas destas).

Tu, autora menor, começas o dia explicando coisas que tu própria consideras estranhas e certas e diferentes e que no fundo são o mundo.

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"Minha querida A.,

Fico feliz que tenhas gostado e sobretudo que não tenhas encontrado erros. 😊
Sabes, não podemos ler livros nem ver o mundo à nossa volta sempre com os mesmos olhos.

Às vezes temos de olhar com  olhos diferentes ( temos de arranjar vários tipos de olhos) para ver ou conhecer o que nos é apresentado de forma diferenciada: sejam cores, seja uma n…