domingo, 26 de junho de 2016

Obrigada - "A Mãe"




Um muito obrigada a todos os que foram ver "A Mãe". A todos os que foram ver a peça, aos que quiseram e não puderam, mas sobretudo à equipa extraordinária que deu vida à Clara e que a propôs ao espectador. À equipa extraordinária - repito -, que chorou durante os ensaios pela violência do enredo, que desesperou, que transpirou e que construiu tudo aquilo.
Eu cá só escrevi um texto.

Ontem chegámos ao fim de um caminho de longos meses.


Obrigada. Obrigada. Obrigada.


quinta-feira, 23 de junho de 2016

No dia em que tu morreste



No dia em que tu morreste
o chão abriu-se
e todos os mortos sairam do caixão para procurarem os seus vivos. 


No dia em que tu morreste
 não houve sol
nem chuva,
nem vento porque a terra ficou muda na sua dor. 

No dia em que tu morreste,
nenhum peixe sobreviveu à agua que se tornou veneno nas guelras,
nenhum pássaro sobreviveu  à queda da carne das suas asas
cujas penugens com sangue caiam do céu. 


No dia em que tu morreste
 ninguém cantou, ninguém riu. 

No dia em que tu morreste
 nenhuma mulher foi tocada por nenhum homem na cama,
nenhuma criança foi concebida.



No dia em que tu morreste
era quarta-feira em Lisboa
e o tempo ficou quente no corpo dos homens. 


No dia em que tu morreste
caíram os dedos de todas as crianças 
que brincavam no escorrega no parque
e todas elas choraram os seus dedos no chão . 

No dia em que tu morreste
ninguém voltou para casa porque ninguém sabia aonde ficava  a sua casa


(antes de morreres também eras a minha casa e eu costumava saber onde  ficavas) 


No dia em que tu morreste
o chão abriu-se de verdade:
uma fenda rasgou o norte e o sul
e eu sentei-me para não cair. 


No dia em que tu morreste era Agosto
 mas tudo sabia a inverno e a frio.

No dia em que tu morreste
caíram-me os olhos da cara,
e depois caíram-me as mãos,
 depois os pés. 


No dia em que tu morreste
os lábios dos homens colaram-se
e nunca mais o mundo teve som.


 No dia em que tu morreste
 ninguém fez anos.

 No dia em que tu morreste
 era quarta-feira em Lisboa e
todos os prédios da cidade ruíram juntos.


No dia em que tu morreste, o mundo mudou para sempre.






segunda-feira, 20 de junho de 2016

Ilíacos





Contavas-me os ossos do corpo como quem conta uma história: eu deitada ao teu lado a ouvir-te pelos olhos com a atenção de um aprendiz mudo
- aqui a clavícula, aqui o esterno, aqui as tuas costelas
 (e os teus dedos a entrarem pela minha pele, explicativos, analíticos, cirúrgicos)


E nas pernas agarravas-me para me explicar
- aqui o teu fémur, a tíbia, este é o

e os teus dedos a marcarem o território do corpo até os nossos  ossos terem de se levantar para sair dali.

Viemos.
Mas aqui a clavícula, o esterno, as costelas, a rotula, o fémur, a tíbia: até os teus olhos me dizerem com a ajuda dos ossos da tua boca
-eu não sei se sobreviveria sem ela,  eu não sei se sobreviveria sem ela, eu não sei se sobreviveria sem ela, eu não sei se sobreviveria sem ela, eu não sei se sobreviveria sem ela, eu não sei se sobreviveria sem ela, eu não sei se sobreviveria sem ela, eu não sei se sobreviveria sem ela, eu não sei se sobreviveria sem ela, eu não sei se sobreviveria sem ela, eu não sei se sobreviveria sem ela, eu não sei se sobreviveria sem ela, eu não sei se sobreviveria sem ela, eu não sei se sobreviveria sem ela, eu não sei se sobreviveria sem ela, eu não sei se sobreviveria sem ela, eu não sei se sobreviveria sem ela, eu não sei se sobreviveria sem ela, eu não sei se sobreviveria sem ela, eu não sei se sobreviveria sem ela.


E eu a aprender que nada serias sem ela porque ela é o único osso que sobra depois de ti.





photo: Mueck

quinta-feira, 16 de junho de 2016

A MAE



Agradecer uma noite maravilhosa, a artistas que acreditaram desde o inicio e que fizeram tudo ontem acontecer.
A nossa "A Mae" foi um sucesso!!!!

reservas para boutiquedecultura@gmail.com


Obrigada!



quarta-feira, 15 de junho de 2016

O teu corpo tem um nome





Hoje roubei-te as costas quando estávamos a dormir e tu não viste. Não as devolverei.
Trago-as comigo para não as dares a mais ninguém porque me pertencem. Não dou o que é meu. Como o teu corpo também me pertence. E também me pertencem os teus olhos e as tuas duas pernas magoadas: também é meu o teu peito quando voa, quando atropela ou quando é atropelado
- acredito que está escrito algures que todo o teu corpo é meu

E as tuas mãos também são minhas: são meus os teus dedos, as tuas unhas, a tua pele seca ao toque.
É meu todo o teu corpo - que desossado - tem o mundo inteiro lá dentro.



"A Mãe" - estreia hoje

Quarta-Feira dia 15 de Junho, que estreia a peça de teatro A MÃE no Espaço Bento Martins da Boutique da Cultura.
Um texto de Inês Leitão com encenação de João Borges de Oliveira.
Em palco com 4 atrizes: Ana Mafalda Costa, Glória Rosa, Marta Mateus eSónia Maria Bispo Correia.
Em cena nos dias: 15,16, 18, 22, 23, 24 e 25 de Junho, sempre às 21h30.
Façam as vossas reservas pelo e-mail: boutiquedacultura@gmail.com

credits: Bruno Saavedra


"A Mãe" - estreia hoje!


domingo, 5 de junho de 2016

Das paredes do quarto



Isto é como um buraco de parede que se escavou a si próprio: e aqui já não mora ninguém.

As paredes ganharam bolor e as madeiras das janelas ganharam bicho, esverdearam pelo peso líquido da humidade.
As velhas cortinas do quarto dizem vento de vidros partidos
repara,  dizem vento de vidros partidos porque deixaram de dizer Amor.

As camas,
a cama do quarto dorme o sono eterno até que lhe ateiem fogo e a sua madeira de pinho antigo se converta no calor que sacia: no calor que todos os corpos que se juntam, um dia, deveriam ter sabido conhecer.

Os candeeiros de pé de veludo envelheceram: a perfeição do veludo morreu vermelha  de rota.

O pó abafou a vida dos móveis que um dia foram admiráveis; os cristais da casa foram silenciados.

A casa não tinha livros e por isso não havia nem páginas, nem capas mortas pelo chão.

Por nada mais restar, por não haver mais vida lá dentro, a Morte cobriu-se, calçou-se e veio.
Selou a casa batendo a porta com toda a sua força e cuspiu no tapete de entrada antes de descer
- a saliva cuja acidez extermina.

E então, aqui, não haverá mais vida.
Então, aqui, não haverá mais chão.





Image: Eric Lacombe

sexta-feira, 3 de junho de 2016

Livro - "O Padre das Prisões"





«A autora, Inês Leitão, sem perder o fio de homenagem e reconhecimento que por todos nós é devido ao Padre das prisões, leva-nos bem mais longe, trazendo-nos suporte teórico, cultural, religioso, enfim, humano, para podermos acompanhar uma leitura sempre cativante e chegarmos ao conhecimento fundamental para exercermos responsavelmente o direito democrático de opinião sobre um tema acerca do qual, em geral, afirmamos tanto e sabemos tão pouco», assinala o antigo Ministro da Justiça, prof. Laborinho Lúcio.


quinta-feira, 2 de junho de 2016

Da vida de depois








Talvez os teus dedos novos
Talvez a boca
Talvez o mundo e as pedras e os troncos;
talvez o sangue, o cabelo loiro e a estrada.



Talvez o meu corpo magro
talvez o espelho,
talvez tu a saberes quem eu sou quando as palavras não se dizem
(às vezes as palavras não se dizem porque não há lugar para elas fora da boca)



Talvez um agora e para sempre.
Talvez a janela, o alpendre, a varanda ou a casa toda
(tu a seres a casa toda)

Talvez nunca mais andar na corda em altura 
talvez nunca mais sentir medo de cair.
Talvez um conto. Talvez um enorme ponto.




image: Eric Lacombe

Da vida do corpo

Gostava de te puder contar coisas; que o sol já não se chama sol, nem a lua, lua nem os montes são mais habitados por flores nem por h...