quarta-feira, 6 de abril de 2016

O Funeral da Perna





Fui eu quem cortou.
Peguei na machada: doeu pouco.Sentei-me para cortar, pensei em tudo antes.
Sentei-me, usei a machada que estava na varanda. Pensei que estarias no meu braço ou na minha perna, pensei sentir-te passar por mim
- porque tu eras um braço ou uma perna minha, ou talvez fosses o meu corpo todo

( agarrei no braço e na perna para sentir-te vir: tu costumavas correr-me no sangue, costumavas esgueirar-te por dentro )

E senti-te na perna: estavas lá.

Não podia deixar que existisses mais, e te espalhasses. Gangrenavas-me e eu gangrenava-te a ti; tive de me desossar para continuar a viver
(eu precisava viver, sabes?)

Sentei-me - sem medo -  e dei a primeira machadada na virilha. Não gritei. A primeira de  quatro onde não houve sangue, onde não escorreu nada
- a dor pendurada no tecto da sala; eu a olhar para ela sem chorar



E não houve lugar a gritos. Dos golpes não houve histeria nem sujidade. Quatro machadadas sucederam-se até a perna cair e tu caíres com ela
- tu a deixares de ser o meu corpo, tu a deixares de ser a minha perna


O Fim.


Dizem-me que debaixo da pele da carne que cosi, em breve outra perna nascerá. A pele inflamará e os ossos novos rebentarão, à laia de dentes, para formar músculos, cartilagens, veias e artérias. Uma perna nova moldar-se-à à anca, crescerão dedos e unhas e voltarei a andar como antes.

Desta perna não fiz funeral.
Não podia permitir que o meu coração voltasse a infectar.




Texto CAPAZES - A Carrilho o que é de Carrilho

A ler aqui