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A mostrar mensagens de Outubro, 2012

Cilício (I)

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Há dias em que não sabemos sair de casa ou em que a casa não sabe sair de nós.
Estamos a comer uma tosta mista com carne e milho e pão alentejano na Ericeira. Há dias em que não consigo sair da cama.Temos de beber dois ice teas para a tosta escorregar por dentro, para  conseguir passar  da boca até ao estômago.
Em dias destes as pernas saem-te da cama. As pernas fazem-te levantar e caminhar até à casa de banho quando essa era a tua última vontade.Costumava deixar restos de tosta nos dentes de trás para puder ficar com alguma coisa dessa tarde: havia tempo enquanto a massa do pão não se desprendesse da gengiva,o tempo da estrada da Ericeira até minha casa. E quando as tuas pernas te fazem voltar ao quarto, sentas-te novamente na cama, os teus braços vestem-te com o amor que precisas para despertar,

as tuas mãos lavam-te a cara,
e os teus dedos indicadores,  molhados de saliva, alinham-te as sobrancelhas frente ao espelho
como a tua ama fazia quando eras pequena e ela te lavava; para dep…

Biografia Inês Leitão

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INÊS LEITÃO nasceu a 1 de Julho de 1981 em Lisboa. É licenciada em Estudos Anglo-
Americanos pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa e pós-graduada em
Assessoria Empresarial pelo ISLA.
Teve a sua primeira publicação na revista “Quase” em 2001. Seguiram-se colaborações em “Os Fazedores de Letras” durante o ano de 2003. Em Maio de 2004 cria na blogosfera bocadosdecarnepelasparedesdoquarto (www.bocadosdecarne.blogspot.com) e em 2005 inicia a sua participação no blogue Prazeres Minúsculos (www.prazeresminusculos.blogspot.com).
Participa em 2006 na Revista “Sítio” e lança o seu 1º livro em 2007 “Quarto Escuro”(Ed. Livrododia). É responsável pelo projecto “6 Autores com o Plano Nacional de Leitura” (Abril 2008) e em Julho de 2008 é uma das vencedoras da iniciativa dos Artistas Unidos “Isto não é um concurso” com a peça “A última história de Werther”, encenada por João Meireles. Em Setembro do mesmo ano publica a sua primeira história infantil “Pitopeca em África: a história de uma Mi…

O Poema Eterno ou a Palavra Muda

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Há um poema novo a nascer-me debaixo de língua
à laia de árvore que rasga a Terra:
o poema que quer sair.

A palavra muda arde presa à boca
ao que resta dos dentes, da saliva
(a saliva é a água só da boca, exclusivamente da boca, eternamente da boca):
o poema que quer sair.
A palavra muda aflige o corpo,
como dor das contrações de parto
O corpo pára, grita, regela e coça-se:
mas o poema não vem.
O poema como fissura,
o poema como racha vermelha entre as pernas,
o poema como corte
e mágoa e dor.
(todo o poema é dor).

Todo o poema é dor e corpo e boca e ranger de dentes.
Todo o poema é pecado original, sanguinário, mortal.


Não sei o que será de nós
quando o porvir se cumprir
e o cunho da chaga do tempo for marcado
na pele que fervilha
pelo poema que nasceu.