segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

Se eu morresse, tu choravas?

Acordei às 04:37 da manhã com a certeza de que ele estava morto.

Houve uma necessidade evidente do meu corpo se levantar da cama para as minhas mãos dizerem que ele morreu,
como se a concretização da realidade da escrita fosse mais séria, mais segura e até mais real do que um funeral solene que se execute sobre o seu corpo em repouso.








E não foi difícil voltar aqui, mãe.
São 4 horas da tarde e estamos no cemitério de Benfica outra vez. É domingo e eu sei que é domingo pela forma como me penteaste e me encheste de àgua-de-colónia depois de me dares banho. Partiste um galho da árvore ao lado da campa da avó desde o dia em que ela foi sepultada: o primeiro domingo de todos estes que temos vindo a cumprir.
Agora que chegámos, vou ocupar o meu lugar assim que tu colocares a tua mala naquele galho seco que a vai prender e proteger da sujidade da terra

- és bonita, mãe, és tão bonita aos domingos quando estamos aqui as duas

 vais buscar água num balde, comum, partilhado por todos os que aqui têm mortos. Vais tirar a tua pequena vassoura do saco e vais começar a esfregar a campa da avó até o mármore atingir a cor que pretendes. Tem de ficar muito branco. A campa da avó é branca e suja-se rapidamente. Se viessemos cá a meio da semana terias o mesmo trabalho, dizias. São os pássaros e os seus excrementos ácidos que te irritam
(ou é por estarmos aqui porque a avó morreu, não sei)
eu não tenho nada para fazer a não ser ver-te da campa do lado onde me sentei com cuidado para não sujar o vestido.
É domingo. Fomos à missa, almoçámos, apanhámos o autocarro na estação de Benfica e chegámos aqui. Compraste cameleiras porque duram mais e a campa da avó tem de ficar mais bonita do que as outras: nunca foi uma exigência, é uma necessidade. Gostas da tua mãe depois de morta e tens saudades dela. Acho que queres que as pessoas que passam aqui descubram isso pelo estado em que deixas tudo.

Vou olhando para ti a limpar, às vezes pedes-me ajuda com o balde de água e quando chego com o vestido molhado oiço-te rezar e falar com ela como se ela não estivesse por debaixo deste mármore todo, como se estivesse por cima, aqui, sentada ao teu lado vestida de preto com o mesmo lenço na cabeça das fotografias.
Quando começas a falar com ela tens necessidade de limpar os olhos por mim. Eu sei  e tu sabes que eu sei. Vou-me levantado e agarro em duas ou três pedras pequeninas: alguma coisa me diz que devo sair dali para te deixar chorar à vontade. Vão passar-se anos assim mas hoje tenho 6 e sou uma menina inteligente. Alguma coisa me diz que devo sair dali, deixar-te com a tua mãe para ir visitar os vizinhos da avó que vou conhecendo pelas fotografias no mármore deles e por aquilo que deixaram escrito na pedra para lermos. Sei ler. Estes são os vizinhos dela e agora é aqui que ela está.
Daqui a uns quinze minutos vais levantar o pescoço para me procurares e vais chamar-me baixinho.Vou ouvir sem precisares repetir o meu nome. Sei que está na hora, que terminaste e que regressaremos no outro domingo porque há um ritual de vida a cumprir:o nosso, a nossa continuidade.








Estou acordada na minha cama. São 04:37 da manhã e levanto-me para vomitar tudo o que comi ontem.
Amanhã vou a Benfica.


quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

Bacia de sedimentação

(para a minha avó)




O Inverno trouxe osteoporose às árvores. Elas, magras e tristes, arranjam as unhas no jardim tentando esquecer a morte.

A de dedos,
B de boca 
C de morte


quando as árvores do jardim da minha casa sentem a morte, pedem licença para se irem deitar


A de sombra,
B de dor
C de sorte

- foi com  a avó que eu descobri que as senhoras do cemitério do Benfica se deitam todas à mesma
hora, que nenhuma das que ali mora sente medo do escuro ou se deita depois da novela.
 A avó dizia que as árvores do cemitério dançam com o vento às escondidas e que pintam os

lábios de vermelho antes das nove horas da manhã: querem estar bonitas para os que ali chegam desconsolados.

Hoje, a única coisa que duvido, é que tu te deites à mesma hora que os outros.



sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

Rua 23

A comida instala-se no meu corpo
carne, batata, maçã, açúcar e pêra assada

A comida instala-se no meu corpo e fica minha como parte
perna de frango, pão, ovo, gelatina, creme de café e rebuçado

A comida instala-se no meu corpo, desce por dentro,
conforta-me com luxúria, pecado mortal
pá de porco, arroz, massa, creme de chocolate e marmelada

A comida instala-se no meu corpo e fica carne,
a comida nas minhas ancas, nos meus seios,
comida a repousar no meu ventre
bife, carne de vaca, molho de cogumelos, pimenta,
açafrão e natas


A comida a ser eu
quando eu nunca quis ser comida
pato, salsicha, bola de Berlim, pudim, leite creme e macarronada.

(Lucian freud)

terça-feira, 10 de janeiro de 2012

Mão morta, mão morta, vai bater àquela porta

Amanhã não vou. Depois conto-te coisas. Depois digo-te coisas e finjo coisas. Somos amigos e é Inverno. E eu não conheço outro corpo que conheça tão bem o meu como tu dentro do teu. A minha mãe está melhor. Estamos de mãos dadas na praia e vamos entrar na água.Ninguém me vê a sério como tu me vias. Ainda oiço o som do mundo nos meus pés quando ando descalça pela casa. Tu não gostavas de me ver descalça pela casa. A minha mãe não gostava de me ver descalça pela casa. Eu tinha frio quando andava descalça pela casa.

Na noite, é a madeira da cama que me ama.


terça-feira, 3 de janeiro de 2012

O lugar da árvore

Somos arbustos nus,
nós os dois aqui deitados.

Os dedos a viverem ao contrário dentro da mão
(nós aqui somos arbustos invejados)

Pernas a ganharem força
braços com deformações
(nós a sermos folha, nós a sermos casca onde pequenos bichos constroem o seu lar)


Nós, os bonitos arbustos
v
iemos os dois da vagina da mesma árvore.