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A mostrar mensagens de Janeiro, 2012

Se eu morresse, tu choravas?

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Acordei às 04:37 da manhã com a certeza de que ele estava morto.

Houve uma necessidade evidente do meu corpo se levantar da cama para as minhas mãos dizerem que ele morreu,
como se a concretização da realidade da escrita fosse mais séria, mais segura e até mais real do que um funeral solene que se execute sobre o seu corpo em repouso.








E não foi difícil voltar aqui, mãe.
São 4 horas da tarde e estamos no cemitério de Benfica outra vez. É domingo e eu sei que é domingo pela forma como me penteaste e me encheste de àgua-de-colónia depois de me dares banho. Partiste um galho da árvore ao lado da campa da avó desde o dia em que ela foi sepultada: o primeiro domingo de todos estes que temos vindo a cumprir.
Agora que chegámos, vou ocupar o meu lugar assim que tu colocares a tua mala naquele galho seco que a vai prender e proteger da sujidade da terra

- és bonita, mãe, és tão bonita aos domingos quando estamos aqui as duas

 vais buscar água num balde, comum, partilhado por todos os que aqui …

Bacia de sedimentação

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(para a minha avó)




O Inverno trouxe osteoporose às árvores. Elas, magras e tristes, arranjam as unhas no jardim tentando esquecer a morte.

A de dedos,
B de boca 
C de morte


quando as árvores do jardim da minha casa sentem a morte, pedem licença para se irem deitar


A de sombra,
B de dor
C de sorte

- foi com  a avó que eu descobri que as senhoras do cemitério do Benfica se deitam todas à mesma
hora, que nenhuma das que ali mora sente medo do escuro ou se deita depois da novela.
 A avó dizia que as árvores do cemitério dançam com o vento às escondidas e que pintam os

lábios de vermelho antes das nove horas da manhã: querem estar bonitas para os que ali chegam desconsolados.

Hoje, a única coisa que duvido, é que tu te deites à mesma hora que os outros.



Rua 23

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A comida instala-se no meu corpo
carne, batata, maçã, açúcar e pêra assada

A comida instala-se no meu corpo e fica minha como parte
perna de frango, pão, ovo, gelatina, creme de café e rebuçado

A comida instala-se no meu corpo, desce por dentro,
conforta-me com luxúria, pecado mortal
pá de porco, arroz, massa, creme de chocolate e marmelada

A comida instala-se no meu corpo e fica carne,
a comida nas minhas ancas, nos meus seios,
comida a repousar no meu ventre
bife, carne de vaca, molho de cogumelos, pimenta,
açafrão e natas


A comida a ser eu
quando eu nunca quis ser comida
pato, salsicha, bola de Berlim, pudim, leite creme e macarronada.

(Lucian freud)

Mão morta, mão morta, vai bater àquela porta

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Amanhã não vou. Depois conto-te coisas. Depois digo-te coisas e finjo coisas. Somos amigos e é Inverno. E eu não conheço outro corpo que conheça tão bem o meu como tu dentro do teu. A minha mãe está melhor. Estamos de mãos dadas na praia e vamos entrar na água.Ninguém me vê a sério como tu me vias. Ainda oiço o som do mundo nos meus pés quando ando descalça pela casa. Tu não gostavas de me ver descalça pela casa. A minha mãe não gostava de me ver descalça pela casa. Eu tinha frio quando andava descalça pela casa.

Na noite, é a madeira da cama que me ama.


O lugar da árvore

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Somos arbustos nus,
nós os dois aqui deitados.

Os dedos a viverem ao contrário dentro da mão
(nós aqui somos arbustos invejados)

Pernas a ganharem força
braços com deformações
(nós a sermos folha, nós a sermos casca onde pequenos bichos constroem o seu lar)


Nós, os bonitos arbustos
v
iemos os dois da vagina da mesma árvore.