sexta-feira, 23 de novembro de 2012

Carta a Ophelia






Querida Ophelia,




Escrevo-te na noite porque é no silêncio das paredes que eu te vejo e te oiço a cantar junto ao ribeiro.
Tens flores nos cabelos, a face rosada e a testa larga como a minha.Tenho escrito sobre ti e sobre como te sentiste quando Shakespeare te criou para um fim letal e trágico.

Shakespeare ter-te-à dado a vida mas eu prometo repor a verdade.
Vou falar de ti e do que me confidencias quando eu ando por Lisboa a pé. Tu de branco, num vestido longo, descalça e bela: e eu da saia curta e boina vermelha. O vento fica-te bem no cabelo e eu sinto-me feliz por te ter como amiga. Somos amigas, não somos, Ophelia?

Às vezes dás-me a mão.Tens mãos frias e magras e a Elizabeth Sidall é parecida contigo; o Millais tinha razão.
Que fique escrito que me sinto menos sozinha quando tu vens.
Que fique escrito que a nossa amizade nasceu.



segunda-feira, 22 de outubro de 2012

Cilício (I)





Há dias em que não sabemos sair de casa ou em que a casa não sabe sair de nós.
Estamos a comer uma tosta mista com carne e milho e pão alentejano na Ericeira. Há dias em que não consigo sair da cama.  Temos de beber dois ice teas para a tosta escorregar por dentro, para  conseguir passar  da boca até ao estômago.
Em dias destes as pernas saem-te da cama. As pernas fazem-te levantar e caminhar até à casa de banho quando essa era a tua última vontade. Costumava deixar restos de tosta nos dentes de trás para puder ficar com alguma coisa dessa tarde: havia tempo enquanto a massa do pão não se desprendesse da gengiva,o tempo da estrada da Ericeira até minha casa. E quando as tuas pernas te fazem voltar ao quarto, sentas-te novamente na cama, os teus braços vestem-te com o amor que precisas para despertar,

as tuas mãos lavam-te a cara,
e os teus dedos indicadores,  molhados de saliva, alinham-te as sobrancelhas frente ao espelho
como a tua ama fazia quando eras pequena e ela te lavava; para depois te mandar  levantar vestindo-te uma camisola interior branca num dia frio de Inverno.

As tuas mãos continuam o seu trabalho de mãe e apertam os atacadores da roupa dos teus pés.
A tosta vai na tua boca dentro do carro e vais aguentar o pão nos dentes tempo suficiente para não chorar. As mãos apertam com um elástico o teu cabelo sujo e abrem a torneira da água quente. E esfregam-te, esfregam-te tanto.
Esfregam-te porque desde que o carro saiu não restou mais nada. As tuas mãos não têm pena de ti. Gostam de ti e do teu corpo. Cuidam. É que há o teu corpo. E as tuas mãos pegam na toalha e secam-te as pernas, os pés, seios magros sem maternidade e limpam-te os olhos.
E só assim tu percebes que não estás só: porque te tens e porque é teu o teu corpo.


quarta-feira, 17 de outubro de 2012

Biografia Inês Leitão


INÊS LEITÃO nasceu a 1 de Julho de 1981 em Lisboa. É licenciada em Estudos Anglo-
Americanos pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa e pós-graduada em
Assessoria Empresarial pelo ISLA.
Teve a sua primeira publicação na revista “Quase” em 2001. Seguiram-se colaborações em “Os Fazedores de Letras” durante o ano de 2003. Em Maio de 2004 cria na blogosfera bocadosdecarnepelasparedesdoquarto (www.bocadosdecarne.blogspot.com) e em 2005 inicia a sua participação no blogue Prazeres Minúsculos (www.prazeresminusculos.blogspot.com).
Participa em 2006 na Revista “Sítio” e lança o seu 1º livro em 2007 “Quarto Escuro”(Ed. Livrododia). É responsável pelo projecto “6 Autores com o Plano Nacional de Leitura” (Abril 2008) e em Julho de 2008 é uma das vencedoras da iniciativa dos Artistas Unidos “Isto não é um concurso” com a peça “A última história de Werther”, encenada por João Meireles. Em Setembro do mesmo ano publica a sua primeira história infantil “Pitopeca em África: a história de uma Missão em Maputo” (Ed. Paulinas).
Foi eleita pela revista ELLE Portugal como um dos 20 novos Talentos para o futuro na dramaturgia portuguesa e em 2010 escreve exclusivamente para o blogue Desfibrilhador (www.desfibrilhador.blogspot.com).
Em 2012 é convidada a participar com crónicas semanais no programa de rádio “Manual de Instruções” de Fernanda Almeida (RDP África).

É a autora do “Manifesto pela saída de emergência” e “Manifesto pela utilização de transportes públicos”, manifestos encenados no projecto “Coro das Vontades” (Teatro Maria Matos, Julho 2012).
Os dois Manifestos foram musicados e compilados no segundo CD do pianista português Tiago Sousa.
É autora do documentário “As Mulheres de Deus” (RTP2, 2012), obra baseada na vida de quatro irmãs hospitaleiras do Sagrado Coração de Jesus e do seu trabalho com doentes mentais na Casa de Saúde da Idanha, em Sintra. É também autora do guião e da ideia original do documentário “A Vida de Rafi” (documentário sobre a vida de uma writer/rapper portuguesa na cidade do Porto).
Em Março de 2013 cria a sua primeira instalação: “O Corpo” (instalação baseada na diálogo entre o corpo e a palavra escrita onde cada espectador é convidado a escrever sobre um corpo nu). Em janeiro de 2014 publica o seu terceiro livro “Se o meu corpo fosse um homem” (Ed. Chiado editora). Em Fevereiro de 2014 entrega em Roma, nas mãos do Papa Francisco, uma cópia do seu último documentário “O Meu bairro” (RTP2, 2014) obra que aborda a vida dos missionários e missionárias da Consolata no bairro social do Zambujal. Em Dezembro do mesmo ano, escreve o guião do documentário “O Padre das Prisões” (RTP2, 2016), trabalho documental sobre a vida do Padre João Gonçalves, o Padre das prisões portuguesas. Em junho do mesmo ano, a “Boutique de Cultura” estreia a sua primeira peça de género – “A Mãe”.
No mesmo mês é apresentado, em Aveiro, o livro “O Padre das Prisões" (ed. Caritas).

terça-feira, 9 de outubro de 2012

O Poema Eterno ou a Palavra Muda


 
 
Há um poema novo a nascer-me debaixo de língua
à laia de árvore que rasga a Terra:
o poema que quer sair.

A palavra muda arde presa à boca
ao que resta dos dentes, da saliva
(a saliva é a água só da boca, exclusivamente da boca, eternamente da boca):
o poema que quer sair.

A palavra muda aflige o corpo,
como dor das contrações de parto
O corpo pára, grita, regela e coça-se:
mas o poema não vem.

O poema como fissura,
o poema como racha vermelha entre as pernas,
o poema como corte
e mágoa e dor.
(todo o poema é dor).

Todo o poema é dor e corpo e boca e ranger de dentes.
Todo o poema é pecado original, sanguinário, mortal.



Não sei o que será de nós
quando o porvir se cumprir
e o cunho da chaga do tempo for marcado
na pele que fervilha
pelo poema que nasceu.




terça-feira, 11 de setembro de 2012

03:03


 
 
 
 

Há 3 noites que não durmo. Os olhos não fecham, oiço vozes na cabeça desde as 03:03. Levanto-me para depilar os ossos antes de me sentar na sanita
e fazer água usada sair do meu corpo pela vagina. Há 3 noites que não durmo. Os olhos fecham e entrelaçam as pestanas.
Vejo o meu perfil de olhos fechados como se me visse de fora: as vozes dizem que eu durmo assim e eu acredito. As vozes na cabeça fazem-me acreditar. Aqui em casa ninguém cospe para o chão antes das 09:04 porque ninguém se levanta antes das 09:04. Não há um horário certo de pequeno-almoço porque cada um de nós come apartado, agarrado ao seu prato de sopa com leite, papas e pão. Há 3 noites que não durmo. Na minha casa todas as meninas nasceram com pernas tortas à laia de troncos de árvore mirrados onde o arbusto é a nossa boca. Temos ramos a saírem-nos pela boca.
E folhas verdes entre os dentes. Há 3 noites que não durmo.

quinta-feira, 23 de agosto de 2012

Plantar palavras na boca

 





Não sobrou nada aqui, avó.
Não há sequer a madeira encarquilhada da tua casa, a oliveira dentro da sala, o meu baloiço-pneu que me erguia aos céus se esticasse bem as pernas, se esticasse com força, como os grandes, e como os grandes não te vi nas ruas de Mangualde: tu, uma mulher de lenço preto, surda e de olhos cinzentos de idade.

É que morreram todos, avó: as primas, o chapeleiro, o padeiro, a Mariazinha e sua filha e a tua rua é agora parqueada, como se tivessemos que pagar para existir dentro daquilo que é nosso, dentro daquilo que trazemos cá dentro.

É que nem sobrámos nós, avó. Não fomos as mesmas a voltar para uma Lisboa gigante que nos conforta no anonimato. Porque nós não nos achámos lá.
Eu não estava no teu quintal a ver as galinhas picarem-me as pernas sem que me desviasse, sem que soubesse que existem dores que não precisamos padecer, e que com quatro anos, ainda não temos de sofrer pela remissão dos nossos pecados. 




Eu padecia até que alguém chegasse.


A mãe está parecida contigo.
E eu não encontrei ninguém que pudesse ser eu.

domingo, 19 de agosto de 2012

Dos ossos gastos


                                                                                     Casteleiro, 18 de Agosto de 1893




Para a S. com todo o meu amor



O corpo é uma lonjura.
Podias bater-me vezes sem conta porque o meu corpo já não sente: é longe e já não dói.

A bofetada não faz mais o rosto inchar o inconveniente vermelho, nem os pontapés nas costas são mais sofrimento.

As marcas das pancadas deixaram de causar dor ou aflição. Tornaram-se apenas nódoas de luto, como se os vasos sanguíneos debaixo da parte da pele  atacada quisessem erguer um luto corpóreo,
um luto imediato que se substitui à necessidade do uso de uma peça de roupa preta
(a minha pele em luto assume uma negritude cerimonial à laia de lenço na cabeça, de saia ou de camisa de botões de punho)


e não haverá na minha cabeça tormento maior do que a ausência dessa dor fisíca que se embala, essa dor que nos ultrapassa; a majestade da dor, a sua enormidade dentro de nós já que sem ela nunca chegará o desgaste nem o fim.

E este meu amor por ti, este meu imenso amor por ti, será sempiterno.



quarta-feira, 20 de junho de 2012

Do acto de contrição






Podíamos começar por aquela noite em que eu apareci à tua porta de pijama e pantufas
- eram duas da manhã e os meus olhos não conseguiam sono de tão sozinhos, apartados do resto da cara, apartados do nariz, da boca, das sobrancelhas



depois de me ver do tecto,
eu a ver-me do tecto, das paredes, eu a ver-me sozinha, sem ti e sem mim, tu a seres uma voz, tu ao telefone a seres uma voz, tu a mandares-me voltar, a dizeres-me para ir que ninguém saberia de nada: tu
tu com amor da varanda, a esperares por mim, a vir da estrada com o meu corpo, com o meu pijama e com as minhas pantufas
- o carro mal estacionado


tu a deixares-me entrar de pijama, o carro, eu, os sacos: eu, os sacos e aquilo que havia entre nós, aquilo que era inquietação e amor. Talvez fosse inquietação e amor.
Sempre foi inquietação. E talvez sempre amor.

terça-feira, 15 de maio de 2012

Remissão dos pecados





O espelho.
Estamos a ver-nos ao espelho. Nele somos nus e felizes. Há qualquer coisa no nosso corpo que fala e diz coisas às nossas cabeças. Quando nos deitamos assim, aninhados, como cães da rua ou como pessoas felizes que fazem coisas com o corpo. Nós sabemos fazer coisas com o nosso corpo. E para fazermos coisas com o nosso corpo começamos por olhar-nos nos olhos. Olhamos para dentro um do outro. Nos olhos. Fixamente. Tudo começa nos teus olhos. E depois o que quer que comece nos teus olhos vem para os meus, com força. São os teus olhos. E os meus.
São eles que, como mestres, nos mandam fazer coisas com o corpo. Somos hipnotizados. Obedecemos. Continuamos a ver-nos ao espelho. Mas só depois. Continuamos a ver-nos ao espelho. Nele somos nus e felizes e eternos. No espelho. Ali.
O espelho diz-nos corpo, não nos diz cabeça nem coração -apesar deles existirem debaixo da pele - diz-nos corpo. Tão-só corpo.
O espelho. É nele. Estamos a ver-nos ao espelho.
Nele nus. Nele felizes.


segunda-feira, 7 de maio de 2012

Da palavra do corpo


Não devia ter falado com o tecto do teu quarto hoje de madrugada.

Não devia ter falado com o tecto do teu quarto hoje de madrugada. Não devia ter falado com o tecto do teu quarto sem tu saberes, à revelia.Os teus olhos fechados, o desenho do teu rosto na noite. Quando o nosso corpo dorme é como se fôssemos mortos com o coração a bater. O teu coração batia nos meus olhos abertos, não batia nos meus ouvidos. O teu coração vivo. O tecto do teu quarto vivo. Nós nus numa plataforma de entendimento que a magia estuda e quer compreender. Nós nus de vivos com o coração a bater. E o teu candeeiro a olhar para nós deitados. Devias saber que o teu candeeiro é invertido. Eu nunca tinha visto um candeeiro invertido. Eu nunca tinha visto um candeeiro como o teu.

No telemóvel um relógio.
O relógio, o telemóvel, os dois programado para me dizerem 04:08. E tu. Tu a seres o desenho das tuas pestanas, das tuas sobrancelhas. Tu a seres o teu corpo e a tua nudez. E a tua pele.
A nossa cama não é uma cama. Nós nunca tivemos uma cama. Tivemos chão. E espaço. E corpo. E tempo. Tivemos corpo e tempo a todas as horas da noite. Chão. Espaço. Corpo. Tempo.  O teu corpo em cima do meu. Como se.
Como se o mundo fosse acabar amanhã.
O tecto do teu quarto tem um rosácea que não é uma rosácea. São oito jarros com ramagens. Oito. Contei-os. Contei-os várias vezes para não me enganar. Não me queria enganar. Queria saber.
O teu candeeiro é invertido. Eu nunca tinha visto um candeeiro invertido. Eu nunca tinha visto um candeeiro como.
O teu corpo no chão é um grito de tempo nos meus ouvidos. Um grito.
Não devia ter falado com o tecto do teu quarto hoje de madrugada. Não devia ter falado.

terça-feira, 24 de abril de 2012

Amor-te (II)






Amo-te três vezes a vida toda
três vezes a bruma,
o rio
e a estrada
três vezes o mundo todo
três vezes o corpo depois do exorcismo




Amo-te três vezes a vida toda
três vezes o teu tempo
três vezes o meu
três vezes o hábito dos mortos




Amo-te três vezes a vida toda
três vezes os teus braços
três vezes o teu peito
três vezes o meu medo debaixo das unhas a gritar por nós
presos
pelo
 corpo.







sábado, 17 de março de 2012

Sem título 1

Já há tanto tempo que não mordia as minhas mãos para expiar a minha culpa. Morder a mão até a marca dos dedos poder ser moldada a gesso ou testada por nova colocação da mandíbula
- de forma doce e terna
e ali confirmar tamanho e forma sem a pressão da força bruta.

Já há tanto tempo que não mordia as minhas mãos, a carne gorda da curva do polegar ou o seu osso,
para aquele que é o momento da libertação da minha angústia e do meu medo: as minhas marcas.

Já há tanto tempo que não sentia o alívio que nasce dos meus dentes, a liberdade depois da aflição,
a cura do erro e da culpa.
Já há tanto tempo que não mordia as minhas mãos para expiar a minha culpa.



quarta-feira, 14 de março de 2012

Do corpo e de outros mundos

O que é que vais dizer ao meu corpo
quando o vires aberto diante de ti
no silêncio do desejo?



Que palavras vais dirigir ao meu corpo
quando o analisares desprotegido e sem roupa?


Que sons sairão da tua boca
e que parte do teu corpo servirá o meu?




Que palavras vais dirigir ao meu corpo
quando o vires quieto e lânguido no teu quarto,
deitado na tua cama, por desossar?





O que é que vais dizer
amanhã
ao meu corpo
em carácter de emergência,
por te teres a ti para salvar.


sexta-feira, 9 de março de 2012

A boca a arder

As minhas mãos ficaram em cima da mesa da pastelaria,
apertando-se,
enroscando-se,
suando o que nos disseste quando saiste
- é o diabo: o diabo a tentar-me o corpo, a vir atrás de mim vestido de pés e mãos e pele de homem

as minhas mãos esquecidas na mesa, as migalhas do bolo,
o chá e os meus olhos a pingarem da cara sem eu querer

- as mãos e os pés do diabo a fazerem-no passar -se por um homem de bem, de gravata, erecto: os olhos do diabo a saberem onde eu estou, o lugar do meu corpo longe da mesa da pastelaria

As minhas mãos esquecidas na mesa imobilizadas pela dor, agarradas uma à outra a tentarem salvar-se, amparadas, como irmãs.
As minhas mãos a acalmarem-se, a pagarem a conta e nós a irmo-nos dali.


Dali.
Para sempre.



domingo, 26 de fevereiro de 2012

A nossa poesia

A nossa poesia não tem espinhas no peixe nem cabelos na boca: a nossa poesia é a poesia da verdade.
A nossa poesia não se compadece com a dor nem com o acrilíco, porque a nossa poesia é feita do luto desenvergonhado e do amor que faz os dentes ranger.
A nossa poesia não desaba com obstáculos, a nossa poesia é visionária e sabe o que o futuro diz de nós quando se esconde debaixo da nossa cama para nos ver melhor
(a nossa poesia sabe que nos observam numa base diária)

A nossa poesia é a poesia do nariz colado e a dos olhos fechados: a nossa poesia molha o pão com manteiga no galão quente de manhã ao pequeno-almoço.

A nossa poesia é desavergonhada, anda nua pela casa e tem medo; e diz a toda a gente para sair da frente quando passamos: a nossa poesia é tirana, tem seios perfeitos e às vezes toma comprimidos para dormir quando os nossos olhos observam um tecto demasiado escuro para ser tudo de verdade.

A nossa poesia gosta de nos afogar na banheira até nos privar de respiração, e suporta o nosso corpo imediatamente até à superficie só para nos lembrar que estamos vivos.

A nossa poesia põe-nos a mesa de manhã e compra bolas de berlim mal cozidas
(nossa poesia é uma bola de berlim da praia das Maçãs quando tínhamos 5 anos)

A nossa poesia aconchega-nos à noite porque a nossa poesia não é a poesia da academia, nem dos sonetos, nem das elégias:
a nossa poesia é a poesia da nudez, é a poesia do amor ardente,
que nos desfaz os dentes e nos deixa doentes.










terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

Ouvidos em flor

Eu não queria que ninguém se aproximasse de mim no comboio, que ninguém me tocasse, que ninguém me mexesse na saia. Não, certificar-me que não há ninguém em pé atrás de mim, ninguém em pé à minha frente. O comboio é um sítio pequeno e apertado onde as pessoas dançam agarradas ao tecto
- não, eu não queria estar agarrada a ninguém, só ao tecto

 sempre admirei a firmeza calma dos tectos brancos em cima de mim
- só o tecto, sem tocar nada

enquanto o comboio nos faz dançar
-só ele


Quando tenho medo o meu nariz sangra. Eu não gosto de sangue. Eu não danço agarrada aos outros enquanto o comboio anda para o meu nariz não sangrar mais.
Só o tecto. Eu e ele.O nariz a pingar pequenas gotas quentes: o sangue a surgir em motivos de flor na minha saia nova. Curtos desenhos a pintarem a minha saia, perto da pele.
Eu nunca tinha visto tanto sangue junto na mesma saia.
Eu nunca tinha visto o mar.


sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

As pernas afastadas para ninguém entrar









O rato roeu a rolha da garrafa do rei da Rússia. O rato nunca roeu a parede.
(ou Carta de um homem mal amado)















Sou um homem, parede. Sou um homem nu, deitado sozinho numa cama, a encostar-te o meu pénis frio, acordado de uma noite que acontece todos os dias dentro do meu corpo. O meu pénis erecto sou eu a querer toque, parede limpa e branca, um simples toque que me faça armar o desejo e conseguir prazer. Quero desmaiar contigo aqui nu, porque o amor tudo pode e eu quero ser teu esta noite, como seria de uma mulher de carne e osso
(as mulheres de carne e osso não existem como tu, parede branca, por escrever)

queria entrar em ti e ser-te, enquanto pela casa milhares de páginas soltas e textos roubados se deitam pelo  chão: milhares e milhares de folhas fotocopiadas pelo chão a dizerem silêncio e medo, como se o vidro das janelas fosse demasiado espesso para haver vida para além do meu pénis erecto, para lá dos papéis no chão.

Ao nosso lado, milhares e milhares de papéis mortos, feridos e amputados pela casa, pelo quarto,
  na pequena despensa à direita da cozinha
(houve uma Grande Guerra no meu sexo que fez milhares de desaparecidos)

milhares de papéis: papéis rasgados e violados pela leitura dos olhos atentos e ferozes que me cresceram na cara, que sobreviveram ao tactear de unhas grossas imperturbáveis
(eu sou os meus olhos, o meu nariz, a minha boca e as minhas orelhas: o meu pénis erecto cheio de vontade de te ter, parede por abrir)

todos os papéis do chão a falar ao mesmo tempo;
 vozes baixas, masculinas e femininas a mostrarem-se nuas como eu aqui deitado frente a ti, parede calada, parede azul 
São 01:47 e eu ainda não 

(o meu pénis e a minha mão)

milhares e milhares de papéis a cheirar a árvores mortas e a arranjos de impressora: papéis a chorarem por mostrarem os seios e o sexo branco enquanto as palavras vão sendo ditas

o corpo surge nu na folha enquanto 

o meu corpo solitário e desfeito ao teu lado, parede, depois de me limpar. Às vezes olho-te nos olhos à espera de ver tudo, de sentir todas as coisas do mundo, mas nada surge para além da minha nudez de vício, numa parede branca e cega.


segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

O poema que eu não sou

Tenho costas de poema
unhas de poema
 dentes de poema.

Tenho cabelos de poema
 útero de poema
 ancas de poema.

Tenho queixo de poema
 pele de poema
vagina de poema.

Tenho dedos de poema
orelhas,
boca
e nariz de poema.

Tenho fluídos corporais de poema
odor de poema
cabeça de poema.

Tenho olhos dilatados de poema
narinas de poema
joelhos, ossos
e costelas de poema.

Tenho cara de poema
pestanas de poema,
ausência de pêlos de poema.

Tenho febre de poema
doença de poema
dor de braços de poema.

Tenho medo de poema
solidão de poema
crostas e nódoas negras de poema.

E tenho audácia de poema
coragem de poema
amor de poema.


segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

Se eu morresse, tu choravas?

Acordei às 04:37 da manhã com a certeza de que ele estava morto.

Houve uma necessidade evidente do meu corpo se levantar da cama para as minhas mãos dizerem que ele morreu,
como se a concretização da realidade da escrita fosse mais séria, mais segura e até mais real do que um funeral solene que se execute sobre o seu corpo em repouso.








E não foi difícil voltar aqui, mãe.
São 4 horas da tarde e estamos no cemitério de Benfica outra vez. É domingo e eu sei que é domingo pela forma como me penteaste e me encheste de àgua-de-colónia depois de me dares banho. Partiste um galho da árvore ao lado da campa da avó desde o dia em que ela foi sepultada: o primeiro domingo de todos estes que temos vindo a cumprir.
Agora que chegámos, vou ocupar o meu lugar assim que tu colocares a tua mala naquele galho seco que a vai prender e proteger da sujidade da terra

- és bonita, mãe, és tão bonita aos domingos quando estamos aqui as duas

 vais buscar água num balde, comum, partilhado por todos os que aqui têm mortos. Vais tirar a tua pequena vassoura do saco e vais começar a esfregar a campa da avó até o mármore atingir a cor que pretendes. Tem de ficar muito branco. A campa da avó é branca e suja-se rapidamente. Se viessemos cá a meio da semana terias o mesmo trabalho, dizias. São os pássaros e os seus excrementos ácidos que te irritam
(ou é por estarmos aqui porque a avó morreu, não sei)
eu não tenho nada para fazer a não ser ver-te da campa do lado onde me sentei com cuidado para não sujar o vestido.
É domingo. Fomos à missa, almoçámos, apanhámos o autocarro na estação de Benfica e chegámos aqui. Compraste cameleiras porque duram mais e a campa da avó tem de ficar mais bonita do que as outras: nunca foi uma exigência, é uma necessidade. Gostas da tua mãe depois de morta e tens saudades dela. Acho que queres que as pessoas que passam aqui descubram isso pelo estado em que deixas tudo.

Vou olhando para ti a limpar, às vezes pedes-me ajuda com o balde de água e quando chego com o vestido molhado oiço-te rezar e falar com ela como se ela não estivesse por debaixo deste mármore todo, como se estivesse por cima, aqui, sentada ao teu lado vestida de preto com o mesmo lenço na cabeça das fotografias.
Quando começas a falar com ela tens necessidade de limpar os olhos por mim. Eu sei  e tu sabes que eu sei. Vou-me levantado e agarro em duas ou três pedras pequeninas: alguma coisa me diz que devo sair dali para te deixar chorar à vontade. Vão passar-se anos assim mas hoje tenho 6 e sou uma menina inteligente. Alguma coisa me diz que devo sair dali, deixar-te com a tua mãe para ir visitar os vizinhos da avó que vou conhecendo pelas fotografias no mármore deles e por aquilo que deixaram escrito na pedra para lermos. Sei ler. Estes são os vizinhos dela e agora é aqui que ela está.
Daqui a uns quinze minutos vais levantar o pescoço para me procurares e vais chamar-me baixinho.Vou ouvir sem precisares repetir o meu nome. Sei que está na hora, que terminaste e que regressaremos no outro domingo porque há um ritual de vida a cumprir:o nosso, a nossa continuidade.








Estou acordada na minha cama. São 04:37 da manhã e levanto-me para vomitar tudo o que comi ontem.
Amanhã vou a Benfica.


quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

Bacia de sedimentação

(para a minha avó)




O Inverno trouxe osteoporose às árvores. Elas, magras e tristes, arranjam as unhas no jardim tentando esquecer a morte.

A de dedos,
B de boca 
C de morte


quando as árvores do jardim da minha casa sentem a morte, pedem licença para se irem deitar


A de sombra,
B de dor
C de sorte

- foi com  a avó que eu descobri que as senhoras do cemitério do Benfica se deitam todas à mesma
hora, que nenhuma das que ali mora sente medo do escuro ou se deita depois da novela.
 A avó dizia que as árvores do cemitério dançam com o vento às escondidas e que pintam os

lábios de vermelho antes das nove horas da manhã: querem estar bonitas para os que ali chegam desconsolados.

Hoje, a única coisa que duvido, é que tu te deites à mesma hora que os outros.



sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

Rua 23

A comida instala-se no meu corpo
carne, batata, maçã, açúcar e pêra assada

A comida instala-se no meu corpo e fica minha como parte
perna de frango, pão, ovo, gelatina, creme de café e rebuçado

A comida instala-se no meu corpo, desce por dentro,
conforta-me com luxúria, pecado mortal
pá de porco, arroz, massa, creme de chocolate e marmelada

A comida instala-se no meu corpo e fica carne,
a comida nas minhas ancas, nos meus seios,
comida a repousar no meu ventre
bife, carne de vaca, molho de cogumelos, pimenta,
açafrão e natas


A comida a ser eu
quando eu nunca quis ser comida
pato, salsicha, bola de Berlim, pudim, leite creme e macarronada.

(Lucian freud)

terça-feira, 10 de janeiro de 2012

Mão morta, mão morta, vai bater àquela porta

Amanhã não vou. Depois conto-te coisas. Depois digo-te coisas e finjo coisas. Somos amigos e é Inverno. E eu não conheço outro corpo que conheça tão bem o meu como tu dentro do teu. A minha mãe está melhor. Estamos de mãos dadas na praia e vamos entrar na água.Ninguém me vê a sério como tu me vias. Ainda oiço o som do mundo nos meus pés quando ando descalça pela casa. Tu não gostavas de me ver descalça pela casa. A minha mãe não gostava de me ver descalça pela casa. Eu tinha frio quando andava descalça pela casa.

Na noite, é a madeira da cama que me ama.


terça-feira, 3 de janeiro de 2012

O lugar da árvore

Somos arbustos nus,
nós os dois aqui deitados.

Os dedos a viverem ao contrário dentro da mão
(nós aqui somos arbustos invejados)

Pernas a ganharem força
braços com deformações
(nós a sermos folha, nós a sermos casca onde pequenos bichos constroem o seu lar)


Nós, os bonitos arbustos
v
iemos os dois da vagina da mesma árvore.



Texto CAPAZES - A Carrilho o que é de Carrilho

A ler aqui