terça-feira, 22 de março de 2011

Inocência

Devias. Devias ver a minha cara no reflexo do vidro da porta do hospital. Devias ver como as minhas mãos tremiam e como eu queria estar contigo quando os enfermeiros mexiam no teu corpo e te tiravam sangue que parecia vinho.  Devias. Devias dizer-me da tua maca que o fenómeno da escrita é uma canção morta, e eu  olhava para ti com olhos de quem devia. Devias.

A morte do vizinho do 3º b foi o meu único acontecimento emocional em 5 anos. Ponto. Eu a descer as escadas de pantufas para pagar o condomínio e ele. Ele estrangulado na sala. Ponto. O dinheiro na mão. Ponto. Eu, ele, o dinheiro e a minha mão. Ponto. Nenhum de nós a saber o que dizer. Ponto. Ele. Eu. Ponto. Os meus olhos. Os dele. Ponto. Eu a guardar o dinheiro do condominio no bolso. A ir comprar uns sapatos novos. Ponto

Devias. Tu estavas viva e eras bonita a pedir ajuda com os olhos fora da maca que te caminhava. Era a maca que te caminhava: não eras tu a ir nela.
E é que talvez calando, as vozes voltem. E ai, na minha mansidão, saberei escrever sobre o futuro do mundo.
Devias. Devias.

Da vida do corpo

Gostava de te puder contar coisas; que o sol já não se chama sol, nem a lua, lua nem os montes são mais habitados por flores nem por h...