sexta-feira, 13 de outubro de 2017

Da vida do corpo




Gostava de te puder contar coisas;
que o sol já não se chama sol,
nem a lua, lua
nem os montes são mais habitados por flores nem por homens.

Gostava que soubesses que aqui
os rios deram lugar a pedras
e as pedras lugar a um chão que não existia antes
- mas que continua a chamar-se chão.


Queria dizer-te que o Amor morreu.

Sobrou-nos o corpo,
e é a ele que temos quando queremos chorar,
porque as pernas continuaram a ser pernas, e os braços, braços,
e as mãos, mãos
e ainda nos sobrou o toque que podemos fingir ser
o que um dia perdemos para sempre.


Quando as nuvens baixam até ao mar, o frio já não vem.


Quando o Fim acontecer,
vou procurar a pureza do teu pescoço, que tantas vezes conheci nu,
e contar-te o que sobrou de nós
quando nos encontraram mortos na sala de estar.



quarta-feira, 11 de outubro de 2017

Às vezes só a minha cara é que é triste







Às vezes só a minha cara  é triste,
porque o meu nariz e a minha boca não são.


Às vezes só a minha cara é que é triste,
porque as unhas,
o pescoço quase flácido de tempo
e as minhas mãos: nenhum deles se deixa entristecer.


Às vezes só os meus pés: tristes,
porque a pele e as pernas que vão dar aos pés não aceitam a tristeza que lhes querem dar.


Às vezes só a minha orelha esquerda é triste,
pelo que ouve na rua
e o que ouve torna-se um problema para a boca na minha cara que deixa de querer falar,
porque deixa de querer ser a minha boca.


E assim a boca da cara diz-me que só se abrirá por mais um dia,
(não sabe se para falar ou só para abrir os lábios já colados pelo tempo doce da amargura)

- só mais um dia, nessa tentativa de pronúncia 

um dia, longe

para entrarem os bichos debaixo da terra
e ela se deixar ir com eles.




terça-feira, 3 de outubro de 2017

Não há um único dia em que não me lembre de ti




Para Andreia Vaz





Não há um único dia em que não me lembre de ti.

De como te sentavas na mesa da sala de jantar para comermos os nossos ossos;
(nós cozinhávamos-nos  porque só nos tínhamos um ao outro)

a cartilagem morta que a boca achava entre os dentes era delicadamente atirada para o garfo pela língua,
com a mão à frente, de olhos baixos,
como se estivéssemos a pecar.

A cartilagem cirurgicamente colocada à beira do prato sem chorar,
como se não tivesse direito a entrar em nós, ser alimento

(isso éramos nós os dois )

mas não sem antes sorvermos a sopa, com o olhar fixo um no outro
 sem se ver a nossa cara até ao nariz:
a cara anulada pela malga do jantar.

Não há um único dia em que não me lembre de ti.

Eu enquanto preparava o jantar,
a ver-te sentado à televisão há espera que existisses.
(às vezes acho que querias existir na minha vida, só não sabias como e eu também não)

E todos os dias do mundo te quero saber morto.






terça-feira, 19 de setembro de 2017

Da vida do corpo

Gostava de te puder contar coisas; que o sol já não se chama sol, nem a lua, lua nem os montes são mais habitados por flores nem por h...